quinta-feira, 10 de maio de 2012

A ira - Rubens Alves

Recebi este texto da minha amiga e irmã em Cristo, Ana Sara, como contribuição para o Blog. Gostei muito e resolvi compartilhar. Deus fale ao seu coração.


A IRA
(Rubens Alves)

"Como um demônio enjaulado que se rebela, a ira nos deixa mais feios por dentro e, inclusive, reflete-se em nosso corpo.

A beleza é a coisa que mais desejamos. Diotima, sacerdotisa e professora de Sócrates, dizia que todos nós estamos grávidos de beleza - uma beleza esquecida, que deseja sair para tronar-se visível. Vendo as inúmeras empresas que prometem beleza de corpo, como clínicas de emagrecimento, imaginei que os psicanalistas e seus colegas terapeutas poderiam descrever o produto que vendem como “estética da alma”.
Se você não sabe a relação entre a beleza do corpo, eu ensino: é que a alma não fica escondida dentro de um buraco. Ela aparece sempre na superfície do corpo. Quem é feio de alma é feio de corpo. Quem é bonito de alma é bonito de corpo.
Os “Sete Pecados Capitais” são os nomes das diferentes deformações estéticas produzidas por demônios específicos. Cada demônio tem uma feiúra inconfundível que o caracteriza.
A “IRA” é a fotografia de um corpo deformado. Possuído pelo demônio da ira, o corpo sofre uma transformação. A melhor maneira de compreender a ira é representá-la por meio de uma imagem visual.
Lembro-me, nos tempos antigos, dos homens que tinham como profissão rachar lenha. O seu instrumento: um machado afiado. O corpo do rachador de lenha: todo ele a serviço de um único ato: o golpe de machado que, atingindo a madeira, iria rachá-la ao meio.
Os sentimentos do rachador de lenha eram bons. Ele não tinha raiva da lenha. Imagine agora uma pessoa que tenha nas mãos um machado afiado, mas que quer golpear não uma lenha, mas uma pessoa: eis aí a imagem de uma pessoa irada.
É claro que se trata apenas de representação. O machado da pessoa irada não é um machado de aço. É o seu corpo inteiro. Saem lâmina dos seus olhos, das suas palavras, saem lâminas dos seus músculos, saem lâminas do seu rosto.
O seu poder está totalmente concentrado nos golpes para destruir o outro. As outras potencialidades do corpo – a capacidade de carinho, de mansidão, de amor, de brincadeira, de riso – desaparecem. Estão fora do corpo.
A pessoa irada não tem ira. É a ira que a tem. Ele é ira, totalmente.
Essa ira é justa e está a serviço do amor. Aparece como defesa contra um ato que vem de fora. E tão logo ela consiga se livrar da coisa detestável que a provocou, desaparece. Trata-se de uma ira acidental.
Não é assim a ira demoníaca: ela mora, permanentemente, dentro do corpo. Que demônio depositou lá os seus ovos? Não sei. Parece-se, em tudo, com um furúnculo que cresce, dói, lateja, e precisa vazar: furúnculos de lâminas.
As lâminas da ira fora existem primeiramente como lâminas da ira dentro. O possuído sofre a dor de sua própria ira latejante. Enquanto ele não ejacula suas lâminas de machado estilhaçada em milhares de alfinetes espalhados pelo corpo inteiro. Tudo machuca, tudo incomoda – tudo irrita.
O corpo fica, então, à procura do canal para livrar-se dos alfinetes que o incomodam. Quando essa ocasião aparece, o furúnculo explode, os milhares de alfinetes se transformam em machado – e eis uma pessoa possuída pelo demônio da ira.
A feiura da ira dá medo naqueles contra quem o machado está dirigido. Vejo os olhos das crianças apavoradas e indefesas, ante a ira dos pais. Mas, para aqueles que simplesmente contemplam a cena, o sentimento não é de medo. É de profundo pena daquela pessoa bonita que a ira transformou em feia."


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